sexta-feira, 30 de maio de 2014

A Sorte vem. Para quem a procura.

Roberval é desses tantos jovens brasileiros que sonham com uma vida melhor. Sua jornada foi complicada, mas estudou, se formou e não desanimou após receber tantos “nãos” quando procurava emprego. A vida o recompensou. Hoje ele é vendedor em uma loja de móveis e eletrodomésticos.
Já há quase um ano trabalhando e ele lembrou-se de um amigo. O que estaria fazendo Alexandre afinal? Na tarde de um sábado que estava de folga, resolveu dar uma passadinha por lá para revê-lo. Dona Ermínia, mãe de Alexandre, o atendeu. Quase Roberval deu um salto, quando ela lhe disse que o seu amigo estava jogando vídeo game. Parece que seu amigo não tinha mudado em nada, ele pensou.

Peraí que vou chamá ele! – Disse ela.

Roberval ficou ali, sentado naquele sofá acinzentado e cheio de buracos, enquanto ouvia dona Ermínia chamando seu amigo aos berros.

Passou-se um pouquinho e lá vinha ele.

– E meu velho! Quanto tempo hein?
– Oi Alexandre... E ai tudo bem? O que tem feito de bom?
– Ah... Tâmo ai na correria. Sem emprego, mas uma hora se ajeita.
– Sei... Vinte e tantos anos e ainda jogando vídeo game? Que isso rapaz! – Disse dando uns tapinhas no ombro do seu amigo, que o retribuiu com uma piscadela.
– Mas e você o que me conta?

Roberval contou cheio de pompa que estava trabalhando de vendedor e que já era formado em Administração. Se Alexandre não fosse tão maior, Roberval teria lhe aplicado umas palmadinhas. Não saiu dali sem antes fazer uma sugestão.

– ...não dona Ermínia. Passa lá na minha loja depois, que vou te mostrar um sofá lindo para a sua sala! Um sofá que você merece!

O tempo ia passando e a tônica era a mesma: Roberval se empenhando ao máximo em seu trabalho e Alexandre na “correria”. Roberval começou a dedicar mais do seu tempo em visitar o tal rapaz. Ele saia de lá renovado, após “aconselhar” seu amigo a dar um jeito em sua vida.

– ...tem que ser assim: se quiser ser alguém na vida meu caro amigo, tem que trabalhar!
– Uma hora as coisas se ajeitam... – Disse Alexandre, sempre tranquilo.
– Deus ajuda quem cedo madruga. Eu mesmo para você ver: não tinha nada antes de começar a trabalhar e agora já estou dando entrada no meu carro!

Para Roberval não tinha tempo ruim. Chuva ou sol ele estava lá, trajado de social atendendo a todos com um enorme sorriso no rosto. Não demorou muito para que ele fosse promovido a gerente de uma das equipes de vendas. O seu tempo era cada vez mais escasso, porém a recompensa vinha no final do mês.
Com tantas conquistas assim, não era justo continuar morando naquela casinha de dois cômodos. Decidiu então alugar um apartamento mais próximo ao trabalho, um que lhe desse o conforto merecido. Dois quartos, sala ampla, cozinha americana. E claro: tinha que comprar móveis novos. Trabalhar em uma loja de móveis e eletrodomésticos teve uma enorme vantagem nessa ocasião.
Alguns meses depois e Roberval ficou um tanto surpreso quando soube que a loja tinha sido vendida. Surpreso, porém esperançoso. Teve seu pedido de promoção para gerente geral da loja recusado por três vezes. Quem sabe agora, com um novo proprietário ele não teria seu valor reconhecido?
Não esperou muito. Menos de uma semana e ele foi atrás de conhecer o seu novo patrão. Bateu naquela porta tão confiante ou mais de quando bateu ali pela primeira vez. Uma linda moça loira e de olhos azuis o atendeu, e pediu para que ele aguardasse um pouco, pois logo o seu “Dias” estaria de volta.
Então ele Ficou ali: sentado naquele sofá luxuoso, aveludado, de cor vermelho escarlate, quando viu aquele homem Alto e forte entrar. Não pode notar outra coisa antes senão aquela gravata, com um vermelho tão intenso quanto o sofá que o acomodava. Que terno elegante usava aquele homem. Com certeza era um Armani, Pensou ele. Desconfiando dos seus próprios olhos, ele piscou três ou quatro vezes antes de admitir que aquele homem fosse seu amigo.

– Ale... Alexandre? Então foi você que comprou a loja? Meu Deus! Que emprego você arrumou para comprar essa loja meu amigo?!

Alexandre, sempre tranquilo, deu dois tapinhas no ombro de Roberval, o olhou fixamente e após uma piscadela...

– Trabalho? Que nada... Ganhei na Mega Sena!




Por: Marco A. S. Rodrigues

Cachaça Mata

Damião. Damião é um senhor astuto, vivido e gaiato que vive lá pelas bandas do interior de Goiás. Sempre andando pelo vilarejo fumando o seu cigarrinho de palha, e tomando aquela velha e boa cachacinha com os amigos no boteco.
Sua companheira, dona Francisca, que não apreciava muito o comportamento do marido. Como dava trabalho aquele homem! Chegando em casa com aquele cheiro de cinquenta e um, ela tendo que o carregar, dar banho e o colocar para dormir. Mas no outro dia a mesma coisa: ele saindo e dona Francisca o advertindo.

Mais já vai inchê a cara di pinga di novo infeliz?! Tu vai morre égua!
Ara sô. Fica tranquia quí eu num isqueço u caminho di casa não uai!

Mas que mulher amarga, pensava ele. Porém, aquilo logo passava, e lá estava ele com o seu cigarrinho de palha, nos botecos com os amigos a aproveitar os deleites de sua aposentadoria.

Vamu bebê pra comemorá. Quando agente num tivé mais u quí comemorá, agente bebe pra isquecê que num tem!

Os seus amigos o adoravam! No seu aniversário ganhou uma caixa de cigarros de palha venezuelanos e uma garrafa de tequila, do seu amigo “Zézinho”.

– Vou fumá esses cigarro e abri essa garrafa semana quí vem. Comemorá o aniversário da patroa!

Mas que coisa a vida. Damião deveria ter dado ouvidos a sua mulher. Antes que uma semana se passasse e ele não aguentou a bebedeira. No seu velório estavam lá os seus amigos, lamentando a perca de Damião. Todos chorando e relembrando o quão bem humorado era aquele velhinho.
Entretanto, ninguém estava mais triste que dona Francisca. Ficar sozinha para cuidar de três filhos, o que seria dela? Em um ato de desespero e fé, ali a beira do caixão do seu marido ela fez uma prece:

– Ô minha nossa sinhora. Valei-me minha mãezinha. Devorve o meu marido, que eu prometo fazê di tudo para ele pará di bebê!

Todos ficaram espantados quando viram os braços de Damião começar a mexer. Dona Francisca estava com os olhos cheios d’agua e agradecia a todos os santos que se lembrou naquele momento. Seu Damião ali, sentado no caixão, olhando um tanto assustado para todos. Será que a fé de sua esposa o salvou?
Mas aquilo foi demais para dona Francisca. A pobre senhora não aguentou tanta emoção e caiu ali mesmo. Dura como pedra! Então no dia seguinte estavam ali todos os mesmos, só que agora no caixão estava dona Francisca. Não se aguentando de curiosidade mesmo naquele momento de tanta dor para Damião, “Zézinho” tinha que perguntar.

– Uai Damião. Mai como foi que ocê vortô a vive homi?
Num é dí vê Zézin. Eu já tava lá proseando cum São Pedo, quando alembrei qui num tinha fumado nenhum dos cigarro di paia i nem bebido da tal Tequila. Tive que vortá!





Por: Marco A. S. Rodrigues