Roberval é
desses tantos jovens brasileiros que sonham com uma vida melhor. Sua jornada
foi complicada, mas estudou, se formou e não
desanimou após receber tantos “nãos” quando procurava emprego. A vida o
recompensou. Hoje ele é vendedor em uma loja de móveis e eletrodomésticos.
Já há quase um
ano trabalhando e ele lembrou-se de um amigo. O que estaria fazendo Alexandre
afinal? Na tarde de um sábado que estava de folga, resolveu dar uma passadinha
por lá para revê-lo. Dona Ermínia, mãe de Alexandre, o atendeu. Quase Roberval deu
um salto, quando ela lhe disse que o seu amigo estava jogando vídeo game.
Parece que seu amigo não tinha mudado em nada, ele pensou.
– Peraí que vou chamá ele! – Disse ela.
Roberval ficou
ali, sentado naquele sofá acinzentado e cheio de buracos, enquanto ouvia dona
Ermínia chamando seu amigo aos berros.
Passou-se um pouquinho
e lá vinha ele.
– E aê meu velho! Quanto tempo hein?
– Oi
Alexandre... E ai tudo bem? O que tem feito de bom?
– Ah... Tâmo ai na correria. Sem emprego, mas
uma hora se ajeita.
– Sei... Vinte e
tantos anos e ainda jogando vídeo game? Que isso rapaz! – Disse dando uns
tapinhas no ombro do seu amigo, que o retribuiu com uma piscadela.
– Mas e você o
que me conta?
Roberval contou
cheio de pompa que estava trabalhando de vendedor e que já era formado em
Administração. Se Alexandre não
fosse tão maior, Roberval teria lhe aplicado umas palmadinhas. Não saiu
dali sem antes fazer uma sugestão.
– ...não dona
Ermínia. Passa lá na minha loja depois, que vou te mostrar um sofá lindo para a
sua sala! Um sofá que você merece!
O tempo ia
passando e a tônica era a mesma: Roberval se empenhando ao máximo em seu
trabalho e Alexandre na “correria”. Roberval começou a dedicar mais do seu
tempo em visitar o tal rapaz. Ele saia de lá renovado, após “aconselhar” seu
amigo a dar um jeito em sua vida.
– ...tem que ser
assim: se quiser ser alguém na vida meu caro amigo, tem que trabalhar!
– Uma hora as
coisas se ajeitam... – Disse Alexandre, sempre tranquilo.
– Deus ajuda
quem cedo madruga. Eu mesmo para você ver: não tinha nada antes de começar a
trabalhar e agora já estou dando entrada no meu carro!
Para Roberval
não tinha tempo ruim. Chuva ou sol ele estava lá, trajado de social atendendo a
todos com um enorme sorriso no rosto. Não demorou muito para que ele fosse
promovido a gerente de uma das equipes de vendas. O seu tempo era cada vez mais
escasso, porém a recompensa vinha no final do mês.
Com tantas
conquistas assim, não era justo continuar morando naquela casinha de dois
cômodos. Decidiu então alugar um apartamento mais próximo ao trabalho, um que
lhe desse o conforto merecido. Dois quartos, sala ampla, cozinha americana. E
claro: tinha que comprar móveis novos. Trabalhar em uma loja de móveis e
eletrodomésticos teve uma enorme vantagem nessa ocasião.
Alguns meses depois e Roberval ficou um tanto surpreso quando
soube que a loja tinha sido vendida. Surpreso, porém esperançoso. Teve seu
pedido de promoção para gerente geral da loja recusado por três vezes. Quem
sabe agora, com um novo proprietário ele não teria seu valor reconhecido?
Não esperou
muito. Menos de uma semana e ele foi atrás de conhecer o seu novo patrão. Bateu
naquela porta tão confiante ou mais de quando bateu ali pela primeira vez. Uma
linda moça loira e de olhos azuis o atendeu, e pediu para que ele aguardasse um
pouco, pois logo o seu “Dias” estaria de volta.
Então ele Ficou
ali: sentado naquele sofá luxuoso, aveludado, de cor vermelho escarlate, quando
viu aquele homem Alto e forte entrar. Não pode notar outra coisa antes senão
aquela gravata, com um vermelho tão intenso quanto o sofá que o acomodava. Que
terno elegante usava aquele homem. Com certeza era um Armani, Pensou ele. Desconfiando
dos seus próprios olhos, ele piscou três ou quatro vezes antes de admitir que
aquele homem fosse seu amigo.
– Ale...
Alexandre? Então foi você que comprou a loja? Meu Deus! Que emprego você
arrumou para comprar essa loja meu amigo?!
Alexandre,
sempre tranquilo, deu dois tapinhas no ombro de Roberval, o olhou fixamente e
após uma piscadela...
– Trabalho? Que
nada... Ganhei na Mega Sena!
Por: Marco A. S.
Rodrigues
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