sexta-feira, 30 de maio de 2014

Cachaça Mata

Damião. Damião é um senhor astuto, vivido e gaiato que vive lá pelas bandas do interior de Goiás. Sempre andando pelo vilarejo fumando o seu cigarrinho de palha, e tomando aquela velha e boa cachacinha com os amigos no boteco.
Sua companheira, dona Francisca, que não apreciava muito o comportamento do marido. Como dava trabalho aquele homem! Chegando em casa com aquele cheiro de cinquenta e um, ela tendo que o carregar, dar banho e o colocar para dormir. Mas no outro dia a mesma coisa: ele saindo e dona Francisca o advertindo.

Mais já vai inchê a cara di pinga di novo infeliz?! Tu vai morre égua!
Ara sô. Fica tranquia quí eu num isqueço u caminho di casa não uai!

Mas que mulher amarga, pensava ele. Porém, aquilo logo passava, e lá estava ele com o seu cigarrinho de palha, nos botecos com os amigos a aproveitar os deleites de sua aposentadoria.

Vamu bebê pra comemorá. Quando agente num tivé mais u quí comemorá, agente bebe pra isquecê que num tem!

Os seus amigos o adoravam! No seu aniversário ganhou uma caixa de cigarros de palha venezuelanos e uma garrafa de tequila, do seu amigo “Zézinho”.

– Vou fumá esses cigarro e abri essa garrafa semana quí vem. Comemorá o aniversário da patroa!

Mas que coisa a vida. Damião deveria ter dado ouvidos a sua mulher. Antes que uma semana se passasse e ele não aguentou a bebedeira. No seu velório estavam lá os seus amigos, lamentando a perca de Damião. Todos chorando e relembrando o quão bem humorado era aquele velhinho.
Entretanto, ninguém estava mais triste que dona Francisca. Ficar sozinha para cuidar de três filhos, o que seria dela? Em um ato de desespero e fé, ali a beira do caixão do seu marido ela fez uma prece:

– Ô minha nossa sinhora. Valei-me minha mãezinha. Devorve o meu marido, que eu prometo fazê di tudo para ele pará di bebê!

Todos ficaram espantados quando viram os braços de Damião começar a mexer. Dona Francisca estava com os olhos cheios d’agua e agradecia a todos os santos que se lembrou naquele momento. Seu Damião ali, sentado no caixão, olhando um tanto assustado para todos. Será que a fé de sua esposa o salvou?
Mas aquilo foi demais para dona Francisca. A pobre senhora não aguentou tanta emoção e caiu ali mesmo. Dura como pedra! Então no dia seguinte estavam ali todos os mesmos, só que agora no caixão estava dona Francisca. Não se aguentando de curiosidade mesmo naquele momento de tanta dor para Damião, “Zézinho” tinha que perguntar.

– Uai Damião. Mai como foi que ocê vortô a vive homi?
Num é dí vê Zézin. Eu já tava lá proseando cum São Pedo, quando alembrei qui num tinha fumado nenhum dos cigarro di paia i nem bebido da tal Tequila. Tive que vortá!





Por: Marco A. S. Rodrigues

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